. Uma crônica para não dizer sobre minorias

Uma crônica para não dizer sobre minorias

  crédito foto: Rafaela Alban


Pergunta complexa para um tempo tão desafiador. Já esteve mais fácil dialogar sobre esse tema, mas ultimamente falar em minorias é ser oposição a governos. Significa que não estamos respeitando a decisão da maioria. Será que é isso mesmo? Perguntam sempre meus amigos. 
É meu caro, Jacson, as coisas não vão bem por aqui. Falar em povos indígenas significa ofensivo e tem gente que não gosta. Isso não é novidade para o Brasil, Levi Strauss conta que um diplomata brasileiro já o confidenciou que o  País não tinha indígenas. O famoso teórico comentava  em seu livro sobre a passagem de um jantar. 
Nem acredita, não é meu amigo? 
Pois, bem espero que uma ministra não fale que  não temos gays... será um sonho de um governo ao fim de seu desgoverno anunciar na ONU que erradicou a “gaysse” e o Brasil é puro. Só tem homens machos e mulheres fêmeas. Nessas terras palavrões foram normalizados. 
Minha amiga portuguesa, quase irmã, perguntava-me o que estava acontecendo conosco.  Eu respondia que as coisas estavam em perfeita sintonia com as eleições passadas. Ainda em 2019, homens passaram a usar a cor azul e mulheres passaram a vestir rosa em definitivo.
A minha amiga avançou e perguntou como estavam as boas famílias. Eu disse que as boas famílias estão bem. Lutam para sobreviver a COVID, o desemprego crescente e as mazelas diárias que nos chegam.  
Ela queria agora falar da questão ambiental. Eu solicitei que não mais avançasse. Eu já estava com vergonha de só relatar problemas e eu poderia ser considerado antipatriótico.
Ela avança e pergunta, cadê aquela sua amiga alemã? Eu a respondo, não mais tenho conversado. 
 - Não? Você era tão amigo.
Respondo: - pois é, tenho refletido, o Brasil virou um lugar de homenagear nazistas. As comparações são constantes. Aqui defender as minorias, ser solidário, propugnar pelo fim da fome... estão sendo consideradas práticas comunistas.
Ela insiste e pergunta: amigo, você está bem? 
Eu digo: estou. 
- Nossa! Você tem me contado fatos que me lembram os registros de História.
Pois é, amiga, esse chão não é mais o Brasil que você conheceu.
As nossas manhãs não têm sido vindouras e as tardes nos trazem a escuridão da noite.
Amiga, perdoe-me, vem uma vontade de chorar, mas não chorarei. Acredito muito nas rosas que estão a brotar lá fora no jardim. 
Tenho torcido para que as esperanças renasçam e não morram nas boas famílias, mas que prosperem nas grandes e pequenas famílias democráticas. 
Encerro a conversa dizendo: é amiga, posso lhe confidenciar uma coisa, espero que tudo isto só seja sonho de um governo e um pesado particular meu.  Espero, pois, eu tenho vários amigos minoritários e não aguentarei ver mais tantas dores, tantos insultos...

Efson Lima – escritor nas horas não vagas.



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